Admiro, confesso. A forma fácil de livrar-se da culpa, jogando-a para o ar e esperando para ver em quem cai. “É toda tua, minha não quero mais. Já tenho muitas do passado para pesar na mochila que carrego para cima e para baixo.” Hoje tu dizes que me ama e me adora, em tudo que faço e falo. Amanhã me escreve desaforos perdidos em formas tortas de brigas. Grita aquilo que carrega há anos, culpa-me porque sou quem está na frente e perto o bastante para ouvir. “Para de melindre e aprenda a ouvir aquilo que vem do outro.”
Então venha, como for, continuo aguentando, ouvindo em silêncio, com os olhos marejados, nariz perto de escorrer, rosto vermelho e dor pela falta de ar que me assalta. Continuo, porque é um teste e dele sairei mais forte e certa do que prefiro carregar na minha bagagem.
As palavras são tiros, que normalmente saem pela culatra. Depois de ditas, jamais voltam e depois de atingir, nada se conserta. Nossa relação é esse vidro, hoje em pedaços. Leve consigo e tente colar, quando estiver do jeito de antes, me ligue e diga; – eu consegui refazer o que quebrei.
Ambos sabemos quão impossível isso é, no caso do vidro. Em mim seria mais fácil, bastava querer, bastava tentar. Mas vidros inteiros ocupam espaço, e tu prefere levar os cacos, assim aproveita para cortar-se e fingir que tem motivos fortes o suficiente para chorar quando a dor sentimental vier.
im feeling it